Rei Arthur
O rei que foi e será
Filho de Uther Pendragon e de Igraine, Arthur é o rei lendário que uniu os britânicos contra os saxões, reuniu os melhores cavaleiros na Távola Redonda e caiu em Camlann. Os historiadores discutem se existiu um chefe guerreiro por trás do mito, mas nenhuma fonte da época o menciona.
Na lenda
A história de Arthur começa numa noite de engano. Uther Pendragon, rei dos bretões, deseja Igraine, esposa do duque da Cornualha, e pede ajuda a Merlin. O mago lhe dá a aparência do duque, e Uther entra em Tintagel como se fosse o marido. Dessa noite nasce Arthur. Em Malory, Merlin cobra o preço do favor: a criança lhe será entregue. O menino é levado em segredo e criado por Sir Ector, que o educa sem lhe contar quem é.
Quando Uther morre, a Bretanha fica sem rei e dividida entre senhores rivais. Nas versões francesas e em Malory, a coroa é decidida por um prodígio: uma espada cravada numa pedra, que só o verdadeiro herdeiro consegue retirar. Arthur, ainda adolescente e sem saber de sua origem, repete o feito diante de todos e é aclamado. Depois vêm as guerras contra os reis rebeldes e os invasores saxões. Em Malory, é também Merlin quem o leva a um lago, de onde a Dama do Lago lhe entrega Excalibur.
Arthur casa-se com Guinevere, filha do rei Leodegrance de Cameliard, que traz como presente de casamento a Távola Redonda. Em torno dela se reúnem os cavaleiros mais notáveis do mundo, entre eles Lancelot, Gawain, Percival e Galahad. Seu reinado é o ápice da lenda: um tempo de justiça, de aventuras e da busca do Santo Graal.
O fim vem de dentro. O amor entre Guinevere e Lancelot é denunciado, a fraternidade se parte em guerra civil, e Mordred, sobrinho (e, em Malory, filho) do rei, aproveita a ausência de Arthur para tomar o trono. Os dois se enfrentam em Camlann. Arthur mata Mordred e é gravemente ferido. Em Malory, o cavaleiro Bedivere lança Excalibur ao lago a pedido do rei, e uma barca com rainhas, entre elas a irmã dele, Morgana, o leva para Avalon. O autor admite que não encontrou prova segura da morte e registra que alguns dizem que Arthur voltará, com o verso que o tornou famoso: o rei que foi e o rei que será.
Origens e fontes
O Arthur mais antigo é um guerreiro, não um rei de corte. A Historia Brittonum, texto galês-latino de cerca de 829, diz que Arthur combateu os saxões ao lado dos reis dos bretões, mas que ele próprio foi o comandante (dux bellorum) em doze batalhas. A lista de doze batalhas termina em Badon, onde ele teria matado sozinho 940 inimigos.
Os Annales Cambriae (anais galeses compilados a partir do século X, com a cópia mais antiga por volta de 1100) registram a batalha de Badon, em que Arthur teria carregado a cruz de Cristo sobre os ombros por três dias e três noites, e a batalha de Camlann, em que ele e Medraut (Mordred) caíram. As datas dos anais, 516 e 537, são calculadas e discutidas. Já Gildas, monge do século VI que narra a vitória de Badon, não cita Arthur.
O nome também aparece em poemas galeses, como o Y Gododdin, onde um guerreiro é elogiado, mas com a ressalva de que ele não era Arthur (paráfrase; a datação do verso é discutida), e na narrativa Culhwch ac Olwen, em que ele já é um grande rei cercado de heróis. A virada decisiva vem em 1136, quando Geoffrey de Monmouth escreve a Historia Regum Britanniae e transforma Arthur em conquistador de um império. É Geoffrey quem dá a Arthur seus pais, o nascimento mágico, a espada Caliburn e a viagem final à ilha de Avalon.
Como mudou ao longo do tempo
Na tradição galesa, Arthur é um herói sobre-humano e um chefe de bandos. Em Geoffrey, ele se torna rei e imperador, e sua queda vem de uma traição doméstica: Mordred toma a coroa e a rainha. No século XII, Chrétien de Troyes transfere o foco do rei para os cavaleiros e inventa o amor cortês de Lancelot e Guinevere. Arthur passa a ser o centro de uma corte que acolhe aventuras, mais do que o protagonista delas.
No século XIII, Robert de Boron e os romances franceses em prosa (o ciclo da Vulgata) ampliam a lenda: o Graal, a espada na pedra e a história trágica do adultério e da queda. Em 1485, William Caxton imprime Le Morte d’Arthur, de Thomas Malory, que reúne essas tradições em inglês e fixa a forma que o mundo de língua inglesa conhece. No século XIX, Tennyson (Idylls of the King) e os pintores pré-rafaelitas devolvem a matéria à moda. No século XX, T. H. White, Mary Stewart, Marion Zimmer Bradley e Bernard Cornwell tratam Arthur ora como rei medieval, ora como chefe guerreiro do século V.
Na lenda × Na história
| Na lenda | Na história |
|---|---|
| Filho de Uther Pendragon e Igraine, gerado em Tintagel com a ajuda de Merlin. | Uther também aparece na tradição poética galesa, cuja datação e relação com Geoffrey são discutidas. A narrativa detalhada de Uther, Igraine e Tintagel é desenvolvida por Geoffrey de Monmouth no século XII e não comprova a origem de um Arthur histórico. |
| Rei de toda a Bretanha, em Camelot, à frente da Távola Redonda. | A Historia Brittonum o chama de comandante de batalhas ao lado dos reis. Camelot e a Távola Redonda só aparecem em textos posteriores. |
| Vence os saxões em doze batalhas. | A Historia Brittonum lista doze batalhas, mas a localização de muitas delas é incerta. |
| Vence em Badon e cai em Camlann. | Os Annales Cambriae registram as duas batalhas, mas só em cópias muito posteriores. |
| Dorme em Avalon e voltará. | Não há túmulo nem relíquia comprovados. A crença na volta aparece em textos medievais. |
Nas adaptações
Arthur é um dos personagens mais retomados da cultura ocidental. O romance de T. H. White deu origem ao musical Camelot (1960), levado ao cinema em 1967. O desenho A Espada era a Lei (Disney, 1963) conta a infância do rei, e Excalibur (1981), de John Boorman, condensa toda a vida de Arthur em um filme. Nos romances, As Brumas de Avalon narra a história pelo ponto de vista das mulheres, e a trilogia The Warlord Chronicles, de Bernard Cornwell, o coloca como chefe guerreiro numa Bretanha pós-romana. A série Merlin, da BBC (2008–2012), imagina o rei ainda jovem ao lado do mago.
Fontes e leituras
- Gildas, De Excidio et Conquestu Britanniae (datação debatida, entre c. 510 e c. 540).
- Historia Brittonum, atribuída a Nennius (c. 829–830).
- Annales Cambriae, texto A (Harleian MS 3859), edição de Phillimore.
- Geoffrey de Monmouth, Historia Regum Britanniae (c. 1136), tradução de Aaron Thompson revista por J. A. Giles.
- Thomas Malory, Le Morte d’Arthur, impresso por William Caxton em 1485 (Project Gutenberg #1251 e #1252).
- Alfred Tennyson, Idylls of the King (1859–1885).
- Camelot Project, Universidade de Rochester.
Hic jacet Arthurus, Rex quondam, Rexque futurus. (Aqui jaz Arthur, o rei que foi e o rei que será.)
Veja também
- PersonagensUther PendragonO cabeça de dragão
- PersonagensIgraineA duquesa de Tintagel, mãe de Arthur
- PersonagensGuinevereA rainha de Camelot
- PersonagensMerlinO profeta e arquiteto do reino
- PersonagensMordred
- Relíquias & MagiaExcaliburA espada da soberania britânica
- LugaresCamelot
- O Arthur HistóricoArthur existiu?
Nota do Historiador
Nenhuma fonte escrita nos séculos V e VI menciona Arthur. Ele aparece pela primeira vez cerca de três séculos depois, na Historia Brittonum e nos Annales Cambriae, e a maioria dos historiadores o considera uma figura possível, mas não comprovada.