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REI ARTURHistória e lenda

Merlin

O profeta e arquiteto do reino
Pintura de Merlin, um homem de cabelos grisalhos e manto verde-escuro, preso entre os galhos floridos de um espinheiro enquanto uma jovem de vestido azul, com um livro aberto nas mãos, olha por cima do ombro
Edward Burne-Jones, 1874 · Public domain · Fonte

Merlin é o mago e profeta que arquiteta o nascimento de Arthur e o aconselha nos primeiros anos de reinado. Geoffrey de Monmouth fundiu duas figuras galesas, o vidente enlouquecido Myrddin e o menino profeta Emrys, para criar o personagem.

Na lenda

A história de Merlin começa com uma torre que não para em pé. O rei Vortigern manda erguer uma fortaleza, mas a terra engole os alicerces a cada noite. Seus magos dizem que é preciso sangue de um menino sem pai. Os mensageiros do rei o encontram em Carmarthen: é Merlin, que um colega chamou de sem pai numa discussão. Em Geoffrey, a mãe jura nunca ter conhecido o homem que o gerou, e um sábio explica que espíritos entre a Lua e a Terra podem se unir a mulheres. Diante do rei, o menino desmonta os magos. Há uma poça sob a torre, e nela dois dragões adormecidos, um vermelho e um branco, que lutam. O vermelho representa os bretões, e o branco, os saxões que o rei trouxera. Merlin chora e profetiza o futuro da ilha.

Mais tarde, serve aos irmãos Aurelius Ambrosius e Uther Pendragon. Para erguer um monumento aos bretões mortos, indica a Dança dos Gigantes, círculo de pedras da Irlanda, e acompanha Uther para trazê-las. É o que Geoffrey conta como origem de Stonehenge. Em Geoffrey, depois de interpretar o astro com forma de dragão, ele usa suas artes para dar a Uther a aparência do duque da Cornualha. Dessa noite nasce Arthur.

Em Malory, Merlin cobra o preço: o filho lhe será entregue. Ele o confia a Sir Ector, mantém o segredo e, quando chega a hora, revela a origem de Arthur diante da corte e de Igraine. É Merlin quem leva o rei ao lago da Dama do Lago, de onde sai Excalibur, e quem avisa que a bainha vale mais que a espada. Ele também arranja o casamento com Guinevere, mas o previne, discretamente, de que Lancelot a amará.

O fim de Merlin é obra de uma mulher. Apaixonado por Nimue, uma das damas do lago, ele lhe ensina tudo o que ela quer saber. Em Malory, avisa Arthur de que será enterrado vivo, mas não consegue evitar. Nimue, que o teme por ser filho de um demônio e que só quer se livrar dele, o leva a uma rocha cheia de maravilhas e o faz entrar sob uma grande pedra, onde ele fica preso para sempre, por sua própria magia.

Origens e fontes

Há dois Merlins antes de Geoffrey. O primeiro é Myrddin Wyllt (“Myrddin, o Selvagem”), poeta e vidente do norte britânico que, segundo poemas galeses medievais, enlouqueceu depois de uma batalha e passou a viver nas florestas. Parte do material equivalente existe em outras tradições, como a do louco profético escocês Lailoken. O segundo é Emrys, menino profeta da Historia Brittonum (c. 829), que revela a Vortigern os dragões sob a torre de Dinas Emrys e diz ser filho de um cônsul romano. O nome Emrys parece vir de Ambrosius Aurelianus, o líder romano-britânico que Gildas elogia.

Geoffrey de Monmouth funde os dois. Primeiro escreve as Prophetiae Merlini (c. 1130–1135), a pedido do bispo Alexandre de Lincoln. Depois reaproveita a história de Nennius na Historia Regum Britanniae (c. 1136), chamando o menino de “Merlin, também chamado Ambrose”, e acrescenta Stonehenge e o disfarce de Uther. Por volta de 1150, na Vita Merlini, retoma o Merlin vidente e selvagem. O nome latino Merlinus é uma adaptação de Myrddin que evita a semelhança com a palavra francesa merde, segundo o estudioso Gaston Paris.

Como mudou ao longo do tempo

Em Geoffrey, Merlin é sobretudo profeta e engenheiro, e só recorre a artifícios mágicos no disfarce de Uther. Ele nem chega a ser mentor de Arthur: depois do nascimento do rei, desaparece da Historia. Quem o faz conselheiro e mestre é Robert de Boron (por volta de 1200). Em seu Merlin, o demônio planeja gerar um Anticristo, mas o padre Blaise batiza o menino, que fica com o conhecimento demoníaco do passado e recebe de Deus o do futuro. Boron inventa o episódio da espada na pedra, arranjado por Merlin, e a Távola Redonda, que Merlin manda fazer para Uther.

Nos romances em prosa, o fim do mago varia. No ciclo da Vulgata, a jovem Viviane o faz dormir numa cova na floresta de Darnantes; em outra tradição, ela o fecha numa torre de ar em Brocéliande, onde os dois vivem como amantes. Malory chama a dama de Nimue e o aprisiona sob uma pedra. No século XIX, a lenda recebe outra forma: Tennyson, em Idylls of the King, dá ao episódio o título de “Vivien”, e Burne-Jones o pinta em The Beguiling of Merlin, a pintura que ilustra esta página. Desde o romantismo, Merlin costuma ser retratado como um velho sábio de longa barba branca, imagem que é a base do mago moderno.

Na lenda × Na história

Na lenda Na história
Conselheiro de Uther e de Arthur, e arquiteto de seu reinado. Esse Merlin é invenção de Geoffrey de Monmouth, no século XII.
Filho de um íncubo (Geoffrey e Boron). É um motivo literário. Na Historia Brittonum, o menino sem pai é filho de um cônsul romano.
Revela a Vortigern os dragões sob a torre. A história vem da Historia Brittonum (c. 829), sobre Ambrosius, e se liga a Dinas Emrys, no País de Gales.
Louco da floresta, o poeta Myrddin. Poemas galeses o ligam à batalha de Arfderydd, e uma versão tardia dos Annales Cambriae a data de 573. As versões mais antigas dos anais não o mencionam.
Traz as pedras de Stonehenge da Irlanda. Stonehenge foi construído milênios antes do século V. A origem irlandesa é invenção de Geoffrey.

Nas adaptações

Merlin é um dos personagens mais retomados da literatura fantástica. Em The Once and Future King, de T. H. White, ele vive o tempo ao contrário e educa Arthur menino, e o desenho A Espada era a Lei (Disney, 1963) herda esse mestre desajeitado. Em The Crystal Cave, de Mary Stewart, é o narrador e sobrinho de Uther. A série Merlin, da BBC (2008–2012), faz dele um jovem feiticeiro que protege em segredo o futuro rei.

Fontes e leituras

  • Historia Brittonum, atribuída a Nennius (c. 829–830).
  • Geoffrey de Monmouth, Prophetiae Merlini (c. 1130–1135), Historia Regum Britanniae (c. 1136) e Vita Merlini (c. 1150), tradução de Aaron Thompson revista por J. A. Giles.
  • Robert de Boron, Merlin (c. 1200).
  • Lancelot-Graal (ciclo da Vulgata) e Suite du Merlin (Pós-Vulgata), século XIII.
  • Thomas Malory, Le Morte d’Arthur, Livros I e IV (Project Gutenberg #1251).
  • Annales Cambriae, textos A e B.
  • Alfred Tennyson, Idylls of the King (1859).
Na primeira noite em que dormirdes com Igraine, gerareis nela uma criança, e, quando ela nascer, que seja entregue a mim para que eu a eduque.
— Merlin a Uther, em Thomas Malory, Le Morte d'Arthur, Livro I, cap. II (Gutenberg #1251, divisão de capítulos do Gutenberg), em tradução nossa

Veja também