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REI ARTURHistória e lenda

A Espada Era a Lei (1963)

O Arthur menino da Disney
Ilustração de um rei de armadura num barco, ao lado de um homem encapuzado, enquanto uma mão ergue uma espada da água entre cisnes
N. C. Wyeth, 1922 · Public domain · Fonte

Animação de longa-metragem dos estúdios Disney, dirigida por Wolfgang Reitherman, baseada no primeiro livro de The Once and Future King, de T. H. White. Conta a infância de Arthur, chamado de Wart, e seu aprendizado com o mago Merlin.

Sinopse

Com a morte do rei Uther Pendragon sem herdeiro, a Inglaterra mergulha no caos. Surge então uma espada cravada em uma bigorna sobre uma pedra, com uma inscrição que declara rei de toda a Inglaterra aquele que a retirar. Ninguém consegue, e a espada fica esquecida.

Anos depois, um menino órfão apelidado de Wart vive no castelo de Sir Ector, seu tutor, e serve de pajem ao irmão de criação, Kay, que sonha em ser cavaleiro. Ao perseguir uma flecha perdida na floresta, Wart encontra o mago Merlin, que enxerga o futuro e se declara seu professor. Merlin e sua coruja Arquimedes levam o menino para o castelo, para desgosto de Ector, que não vê utilidade nos estudos.

Merlin transforma Wart em peixe, esquilo e pássaro para ensinar lições sobre força, inteligência e o perigo. Há perseguições, um lúcio faminto, uma esquilinha apaixonada e um duelo mágico em que Merlin enfrenta a bruxa Madame Min, que se transforma em dragão. Durante a ida a um torneio, Wart percebe que esqueceu a espada de Kay e sai para buscar outra. Encontra a espada na pedra e a retira sem esforço. Revelado como rei, é coroado, e Merlin, que voltara do século XX, volta a ampará-lo.

Produção

A Disney comprou os direitos do romance de T. H. White em 1939, mas o projeto passou décadas esperando. O roteiro foi escrito por Bill Peet, as canções ficaram com os irmãos Sherman e a música com George Bruns. Wolfgang Reitherman assumiu a direção, no primeiro longa em que atuou como diretor único, depois de ter codirigido outros filmes do estúdio.

Tecnicamente, a animação usou o processo de xerografia que a Disney consolidara em 101 Dálmatas (1961), com o traço mais solto dos desenhos que passavam diretamente do lápis para o acetato. A voz de Arthur foi dividida entre três atores: Rickie Sorensen, que passou pela mudança de voz durante a produção, e os irmãos Richard e Robert Reitherman, filhos do diretor. A mudança de timbre é perceptível em algumas cenas.

O filme foi indicado ao Oscar de melhor trilha (adaptação) na cerimônia de 1964, que premiou Irma la Douce.

O que muda em relação à lenda

A Disney não adapta Geoffrey de Monmouth nem Malory, mas sim o livro de White, que já era uma releitura bem-humorada de Malory. Em Malory e nas fontes francesas, Arthur é filho de Uther e Igraine, criado em segredo por Sir Ector, e sua identidade é reconhecida pela prova da espada. O filme conserva essa estrutura, mas a infantiliza: Wart é um garoto desastrado, a espada surge quase por acaso quando Kay a esquece, e a questão da paternidade nem é mencionada.

Merlin é a maior transformação. Nas tradições antigas é profeta e conselheiro de reis. Em White, vive o tempo ao contrário, lembra o futuro e fala de aviões e de eletricidade, e o filme herda essa comicidade. A bruxa Madame Min, que não existe em Malory, é uma invenção de White, e o duelo de transformações, uma das cenas mais famosas, também vem do livro. Ausentes estão Guinevere, Morgana e a Távola Redonda, só sugerida no fim. Em compensação, a espada é a da pedra, não a Excalibur dada pela Dama do Lago, distinção que Malory faz e que a lenda popular costuma misturar.

Recepção e legado

A crítica foi dividida na época, e as resenhas costumam apontar uma narrativa episódica e humor irregular, embora louvem os personagens e as sequências de transformação. Não usamos pontuações atuais de agregadores como um dado fixo da história do filme.

Com o tempo, ganhou o estatuto de clássico da infância e é a imagem de Arthur e Merlin mais conhecida de muitos brasileiros que cresceram com os filmes da Disney. A canção “Higitus Figitus” e a cena do duelo com Madame Min seguem entre os momentos mais lembrados, e a imagem do menino que puxa a espada ajudou a popularizar a ideia de que Arthur foi, antes de tudo, um escolhido de origem humilde.

Aprender antes de governar

A opção por terminar na eleição do jovem rei altera a pergunta central. O público não acompanha a queda de Camelot nem precisa julgar o adultério ou a guerra entre antigos aliados. A questão é que tipo de educação pode preparar alguém que ainda não sabe que terá poder. As transformações de tamanho e de espécie permitem que o menino experimente vulnerabilidade, desejo e perigo em vez de ouvir apenas uma lição abstrata.

O humor depende também do contraste entre o mundo prático de Ector e o conhecimento de Merlin. As tarefas da casa parecem urgentes, enquanto estudar parece dispensável. A história conduz o espectador a rever essa hierarquia: uma habilidade que ajuda a sobreviver num episódio pode ser mais importante que uma aparência de força. Esse é um caminho de leitura do filme, não uma descrição do modo como os textos medievais narravam a formação de todos os reis.

O encerramento mantém uma abertura. Ser escolhido pela espada não resolve todos os problemas que uma vida de governo trará. O menino continua precisando de orientação. Para comparar a animação com Malory, é útil começar pelo que ela decidiu não contar: a diferença não é só de tom, mas também de recorte e de finalidade narrativa.

Fontes e leituras

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